quarta-feira, 24 de março de 2010

Meninas dos olhos

A paixão por câmeras fotográficas passou a ser uma obsessão para Mário Bock, que tranformou o apartamento em um pequeno museu

Cabelos grisalhos, esperto, extrovertido e ágil de tal forma que as palavras que saem da boca se confundem com a velocidade do pensamento. Adora adjetivos; dois em especial. “Olha essa que bonitinha, muito linda”. É assim na apresentação de suas “meninas”. 
O passeio favorito é nas feirinhas de antiguidades do Centro de São Paulo. A turma já o conhece e os vendedores estão atentos aos gostos desse cliente. Ele para, observa, pega, analisa e dificilmente sai com as mãos vazias. As câmeras de fotografar com filmes são as preferidas do fotógrafo Mário Bock.
Quem vê esse jovem senhor de 57 anos correndo de um lado a outro atrás das melhores imagens de flores, paisagens, pessoas, animais, objetos e de tudo que desperte a atenção dos ligeiros olhos guiados por um par de óculos, não imagina o que ele guarda em casa.
Peguei um mapa e segui em busca do tesouro de Mário Bock. Destino: Jardim Umuarama, Zona Sul de São Paulo. Ao chegar, deparei-me com um condomínio na Avenida Interlagos, rodeado pelo verde de algumas dezenas de árvores. O apartamento dele é no alto de um dos prédios. Bato na porta, que estava aberta e eis que aparece o simpático Sr. Bock.
Ele me convida a entrar, apresenta a casa e logo na entrada, tenho uma surpresa. “Mário, você não me disse que colecionava relógios”, observo admirada com a quantidade dessas relíquias de diversos modelos e tamanhos que estão fixados nas paredes e guardados em dois armários de vidro na sala. “Não, veja bem. Isso não é uma coleção é um ajuntamento. Essas peças são muito caras pra colecionar. Vem comigo que vou lhe mostrar onde está a minha coleção”, esclarece Bock

O COLECIONADOR

Saindo da sala e passando por um corredor, chegamos ao cômodo mais ocupado da casa. O ambiente está completamente lotado de câmeras fotográficas e filmadoras, dispostas em prateleiras fixadas em três paredes, separadas por uma porta e uma janela. O acervo tem 2080 peças e muitas delas marcaram a história da fotografia e do fotojornalismo.
A obsessão pelas câmeras começou em 1983, quando uma tia o presenteou com uma máquina e ele resolveu colocá-la na estante da sala. Depois, comprou a segunda, a terceira e achou que elas eram um belo enfeite para o móvel. Quando viu, a estante estava lotada. Então, resolveu fazer uma prateleira em um dos quartos para colocá-las.  Não foi suficiente. O número cresceu tanto que ele optou em usar o famoso “quartinho” para abrigar sua coleção.
Segundo ele, qualquer máquina pode entrar para o acervo, não importando o estado físico dela. “O que mais gosto de comprar é a máquina que tá suja, encardida ou mesmo quebrada. Eu mexo até ela voltar a funcionar”, comenta. Para isso, a dispensa do apartamento virou uma “oficina de máquinas”. Lá, funcionava o antigo laboratório onde ele revelava as fotos das câmeras analógicas. Nesse espaço, está presente um pouco da trajetória do colecionador e sua relação com a fotografia: filmes e acessórios fotográficos, negativos, positivos, reveladores, fotos, flashes e uma série de câmeras que estão na fila de espera para serem atendidas pelo doutor Bock.
Após o tratamento, elas são envolvidas por um saco plástico e vão ocupar um cantinho entre as outras mais de 2 mil que compõe a coleção. “E como você faz para organizá-las e ter um controle de onde elas estão?”, pergunto. “Não organizo. Fica essa bagunça. Aqui não tem mais espaço pra nada. Péra, já vou achar uma aqui que quero te mostrar. Olha que lindinha essa”, diz satisfeito ao encontrar o exemplar que procurava.  O sonho de Mário é um dia montar um museu, de preferência em uma cidade litorânea, como Santos ou Parati e expor suas peças para quem gostar desse tipo de relíquias.
Enquanto não atinge o objetivo, ele continua frequentando as feirinhas de antiguidades. “Gosto de sair para garimpar e comprar a melhor máquina pelo menor preço”, relata. Ele costuma pagar entre R$ 50,00 a R$ 70,00 nos produtos. Entretanto, confessa que já pagou R$ 500,00 em uma câmera e que uma vez, gastou metade do 13º salário em uma única peça.
De acordo com o colecionador, o acervo vale em torno de R$ 100 mil reais e que com esse dinheiro poderia ter comprado dois caros que ele considera bons. “Esse aqui é meu hobby, meu passatempo, mas é um péssimo investimento porque não tem como despachar. Mesmo que eu venda, não vou recuperar o dinheiro que gastei. E depois que eu morrer, não sei o que vai ser disso”, comenta contrariado, mas sem perder o bom humor.
Para garantir um dinheiro extra, Bock costuma emprestar algumas de suas câmeras para filmagens e comerciais. Essa atividade costuma trazer um retorno financeiro que ajuda nas despesas do lar ou na aquisição de mais máquinas.

O DECORADOR

Andar pelo apartamento do fotógrafo é ter a sensação é de voltar no tempo ou de que o tempo parou por ali. Os relógios da parede marcam diferentes horários e alguns têm até cuco. Na sala, há dois sofás, uma mesa, uma televisão e dois armários de vidro cheios de relógios pequenos e outros enfeites menores.
Há ainda três ventiladores e três bicicletas de modelos antigos. Utensílios no mínimo exóticos para a decoração de um apartamento. “E esses ventiladores e bicicletas que você tem aqui?”, questiono. “Ah, esses aí eu comprei porque fiquei com dó”, fala ele. “Dó de que Mário?”, continuo com minha curiosidade.  “Dó dessas coisinhas tão lindinhas irem parar em um ferro velho”, responde-me com um sorriso no rosto.
E por aí, Bock foi literalmente invadindo a casa com as peças de seu apreço. As favoritas ocupam um lugar especial: o guarda-roupa do casal, dividindo espaço com as roupas. “Enquanto ele estiver ocupando a parte dele, tudo bem. Mas que não venha colocar elas pro meu lado que não vou deixar”, comenta Rosana Bock, esposa do colecionador.
Casados há trinta, ela disse que já não se incomoda mais com a coleção do marido. O que Rosana não gosta é da poeira que fica retida nos plásticos que embalam as câmeras. “É tanta máquina que não tem nem como limpar. Eu sou alérgica, olha como fica minha pele: cheia de bolinhas”, relata apontando para os sinais no rosto.
Melhor que estar entre as suas “meninas”, forma carinhosa como ele chama as câmeras, é ficar junto com a filha Débora Bock, de 16 anos. Mário afirma ser um pai presente e que adora estar próximo à filha. Como é autônomo, passa uma boa parte do tempo no computador editando as fotos que tirou nas ruas. O quarto da jovem também funciona como escritório dele. Assim, ele pode ficar com a filha e cuidar da coleção.  Bock afirma ser um pai liberal e que não “prende” Débora. “Eu deixo a minha filhotinha livre pra fazer as vontades dela e quando precisa, levo ela e as amiguinhas pra passear, busco em festinhas até arrumo a cama dela”, afirma o pai coruja.

O FOTÓGRAFO 

Filho de pais imigrantes, Mário falou alemão até os seis anos de idade. O pai dele foi publicitário e a mãe, secretária bilíngüe. O casal de alemães mudou-se para o Brasil no período da Segunda Guerra Mundial. Conheceram-se aqui, casaram e tiveram três filhos. Mário tem um irmão gêmeo e outro irmão mais velho. A família Bock residia na região do Brooklin, Zona Sul de São Paulo.
O interesse pela fotografia despertou-se quando o fotógrafo tinha 13 anos de idade e ganhou sua primeira câmera: uma Kodak modelo Rio 4000. Além disso, montou um laboratório para revelar fotos em preto e branco no próprio quarto. A partir daí, nada escapava da mira dele. “Eu tirava fotos de tudo. Aprendi sozinho, fotografando o cachorro, a empregada, as vizinhas, os amigos e as coisas que aconteciam na escola”, conta.
Aos 21 anos, entrou para a faculdade de jornalismo. Logo no primeiro ano do curso, conseguiu um estágio como fotógrafo em uma revista de engenharia. Ele acompanhava um repórter de texto nas reportagens e fotografava obras. Até que um dia o repórter saiu da empresa e Bock recebeu do chefe a ordem de fazer as duas funções. Desse emprego em diante, ele nunca mais mudou de profissão.
Atualmente, Mário é colaborador em uma revista de fotografia e escreve sobre os últimos lançamentos de máquinas digitais. Apesar de ser um apreciador das câmeras de filme, ele garante que a tecnologia facilitou o trabalho dos profissionais dessa área. “Agora não é preciso mais gastar dinheiro com filmes porque é só jogar no computador que tá alí. Isso é espetacular. Por outro lado, a fotografia digital facilitou o acesso a novos fotógrafos e isso aumentou a concorrência”, explica.
Os anos de profissão já lhe renderam um livro, que o próprio autor diz não indicar pra ninguém. “Nossa, ficou uma porcaria e ainda tive problemas com a editora”, desabafa. Em compensação, a profissão que escolheu lhe trouxe grandes alegrias. “Eu adoro o que faço. Ser fotojornalista é muito legal. A gente viaja, conhece muitos lugares, pessoas interessantes, faz fotos de eventos, muitas festas e ta sempre aprendendo alguma coisa. Quero ser fotógrafo até morrer”, comenta o alegre e ativo Mário Bock.